Um prato cheio demais

By otuga

Por alguma razão tive uma recordação de algo que se passou há já 19 anos. Daquelas coisas que na altura não parecem ter significado, mas que olhadas de muito longe tomam outro sentido. Em 1987 fiz uma viagem maravilhosa de barco com mais 400 miúdos e miúdas de diferentes nacionalidades. Metade espanhóis, 15 portugueses e os restantes da Ibero-América, incluindo o Brasil e ainda um grupo de Norte-Americanos que também falavam espanhol. Passámos por vários países e em cada um deles havia sempre um ou mais eventos de recepção a toda a comitiva. Só por curiosidade, quando visitámos a República Dominicana fomos ao palácio presidencial e cada um de nós, mais os monitores e professores, cumprimentámos o Presidente da Républica da altura. Não lhe gabo a sorte. O senhor teve de apertar a mão a quase 500 pessoas! Um dos descendentes de Cristóvão Colombo, oficial da Marinha Dominicana, segredava-lhe ao ouvido o país de cada um dos visitantes. O pobre Presidente, um senhor já muito velhote, que via e ouvia muito mal, desejava com muita simpatia felicidades para cada um de nós e para os seus respectivos países. Imagine-se quanto tempo não teve o pobre senhor de estar ali em pé e de mão estendida. Hei-de tentar descobrir mais sobre esta personagem.

Bom, mas na realidade, a memória que me visitou foi outra. Como referi, havia sempre um qualquer evento de recepção a esta enorme entourage. Esses eventos costumavam incluir uma refeição, num jardim ou clube de campo, ao estilo self-service. Os 400 miúdos e miúdas formavam a filinha e lá iam andando de prato na mão e recebendo um pouco disto, mais ou pouco daquilo. Ora o que tipicamente acontecia era que os primeiros saíam da fila com um pato que era mais uma pilha de comida e os do fim da fila saíam com um prato com pouca ou nenhuma comida. Que eu me lembre nunca fiquei sem comida, mas por mais que uma vez tive direito a uma pilha de comida. Pilha essa que dificilmente uma pessoa normal conseguia comer na totalidade. Por alguma razão nunca me ocorreu o absurdo e a injustiça da situação. Lembro-me de um dos meus companheiros de viagem, português, estar uma vez a protestar em relação à situação. Não me recordo muito bem, mas tenho a ideia de que olhei para o prato e terei pensado que realmente estava ali comida a mais. E lembro-me que fiz um esforço enorme por comer tudo.

Espero que pelo menos a partir desse dia tenha passado a limitar a quantidade de comida que aceitava na fila. O que é facto é que hoje tenho aversão a pratos cheios demais e não gosto de deixar comida no prato.

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